Kommienezuspadt
30.12.03
Zitat IV
Suburbia is where the developer bulldozes out the trees, then names the streets after them.
Bill Vaughan
Zitat III
The true measure of a man is how he treats someone who can do him absolutely no good.
Samuel Johnson
Zitat II
I find television very educating. Every time somebody turns on the set, I go into the other room and read a book.
Groucho Marx
Ze big tezt
Amanhã, se os deuses o permitirem, irei almoçar comida indiana!
Há um mês e pouco, tal seria impensável! Amanhã veremos se o sistema está au point ou não!
...
Might be the be-all and the end-all here,
But here, upon this bank and shoal of time,
We’d jump the life to come.
...
Macbeth -- Act I. Scene VII.
William Shakespeare
Do timing de um gesto
Há gestos que, quando fora do tempo certo, soam a falso.
Estes gestos, mesmo que vindos da boa vontade, soam a falso.
Contudo, há gestos que não podem surgir da boa vontade, têm que vir do coração, na altura certa. Se assim não acontece, ficamos com uma sensação estranha...
Quando tenho essa sensação em relação a pessoas de quem gosto, fico triste. Sinto que afinal não eram aquilo que pensava serem. Pode ser tolice, mas é assim que o sinto.
Just venting...
27.12.03
Silêncio
Perguntaram-me há uns tempos por que razão tinha uma caneta de tinta permanente com a palavra silêncio escrita no local onde se esperaria encontrar o nome do dono da dita caneta.
Respondi que usava aquela caneta nas aulas e que era uma forma de os alunos pensarem que o silêncio era tão importante quanto o som.
Quem me fez a pergunta olhou-me, pensando com toda a certeza passou-se... entrei numa de filosofar... que o silêncio era o princípio e o fim, que no silêncio se des-constroem as coisas para as voltarmos a construir, que é no silêncio, no final do dia, que nos reencontramos, que, de alguma forma, encontramos paz de espírito. Continuava a olhar para mim a pensar passou-se mesmo...
Então respondi, olha, na verdade, apeteceu-me!
Resposta, ahhh! já podias ter dito! Que cena!
Moral da história: Não vale a pena complicar... (suspiro!)
Whanne Ich Thenche Thinges Thre
1Wanne Ich thenche thinges thre
2Ne mai neure blithe be.
3That oon is Ich sal awe.
4That other is Ich ne wot wilk day.
5That thridde is mi meste kare:
6I ne woth nevre wuder I sal fare.
Translated into modern English:
When I ponder three things
I can never be carefree.
One, that I will die.
Another, I don't know which day.
The third worries me the most:
I don't know where I will go.
Anonymous
Rewinding
http://www.luminarium.org/lumina.htm
em especial, hoje, http://www.luminarium.org/medlit/chaubib.htm
25.12.03
Aniversário
Hoje seria o teu aniversário. 93 anos. Aqui, que nos chegamos ao que sempre conhecemos, ainda é o teu aniversário, mesmo que tu por cá já não estejas.
Ao virar da meia-noite, todos olharam para o relógio e houve assim uma espécie de paragem, uma fracção de segundo, aquela em que todos saltávamos e gritávamos "PARABÉNS!". Agora não o fazemos, mas a hesitação, o momento continua a existir, mesmo que ninguém o verbalize. Entreolhamo-nos e sabemos bem em quem é que cada um de nós está a pensar. E falamos então de ti, porque se pôs a toalha de Natal que costumavas pôr em tua casa, porque se acenderam velas por todos os cantos da sala e tu gostavas de velas, porque cantávamos os parabéns e sopravas as velas fininhas do bolo e ficavas, elegante, sempre elegante, sentado à mesa, muito direito, para a fotografia da praxe.
Nesta altura, desde que partiste, fico com a sensação de que falta comprar duas prendas - uma de Natal e uma de aniversário e dou por mim a olhar para os apetrechos de cachimbo, a pensar se precisarás de uma caixinha nova para guardar o tabaco ou de uma embalagem de filtros ou de um aparelhito para arrumar o tabaco dentro do cachimbo. Dou por mim a olhar para os CDs e a pensar se gostarias deste ou daquele concerto. Dou por mim a ver os livros de imagens de Lisboa e pensar se preferias este ou aquele ali na prateleira sobre Luanda.
Confesso que me esqueço... Confesso, na verdade, que não faço muito esforço para me lembrar que já não vamos cantar os parabéns, que já não soprarás as velas e que já não se tirará a fotografia da praxe.
A última que se tirou foi quando fizeste 91 anos. Está no placard do meu quarto. Sorris, olhando para o bolo, e apreciando a atenção de toda a gente, tu que abrias esta excepção neste dia especial.
I sure miss you.
24.12.03
Merry Christmas, para quem celebra o Natal, and Happy Chanukah, para quem celebra Chanukah! Para quem celebra outras variantes da Vida, um sorriso! :)
Christmas Brainstorm!
De alto valor intelectual, aviso já!
*Bons dias!
* sorrisos
*perfume a Natal
*prendas por baixo da tree
*grande curiosidade!
*afinal compraste-me mais do que uma prenda, olha lá! Não vale!
*pôr as mesas (sim que no Natal não queremos que nos falte nada!)
*não tirem nada dos pratos arranjados para logo, tirem daqui! (parece que ainda oiço a minha mãe, quando éramos miúdos!)
*telefonemas -- mil!
*SMS -- mil e um (que agora é moderno!)
*desenterremos os albuns de Natal (CDs agora, que também é moderno, apesar de eu continuar teimosamente a ouvir o LP velhinho dos Wiener Knaben no único gira-discos, haha! bela palavra, gosto!, que existe na casa e provavelmente na rua inteira também!)
*acendam-se as velas (que o felino siamês olha com desdém, mas que não perde de vista!)
*a Xmas tree e o presépio por baixo (estranha combinação, mas ok!)
*o presépio! A peça preferida do felino, apenas ultrapassada pelas fitas fascinantes que se enrolam e desenrolam sempre que ele lhes enfia o dente, actividade que, curiosamente, tem a tendência de provocar uma onda de protestos e histeria aguda gereralizada! Por que será?!
*o presépio II (que não contei a história...!) Com aquelas figuras tão giras para deitar a patorra! E aquelas palhinhas tão engraçadas, colocadas ali, de certeza, para ele, o felino, bem entendido, brincar!
*o presépio III (naaaaah! tou a brincar! hehe!)
*o cheirete a bacalhau... (sorry, peixe não é comigo...)
*o peru a nadar nos temperos! (ahm... ninguém quer peru pois não?! Wink Wink!)
*o felino a destruir uma fiada de enfeites da tree, a seguir vão as luzes, pensa ele!
*as prendas e os sorrisos e os era mesmo isto que eu queria e a carrada de papel e fitas que fica a desarrumar a sala toda, que ninguém arruma porque amanhã logo se arruma hoje é Natal e que o felino agradece porque afinal quando é Natal é para todos, Yippie, confusão!!
Amanhã é um dia diferente.
Talvez se sorria mais, espero que sim.
Talvez se partilhe mais, espero que sim.
Talvez.
E agora estou a ficar com sono... vou...
IIIIIIt's a Season to be jolly!
La-la-la-la-la! La-la! La-la!
23.12.03
Just for fun II - Words, words, words - pseudodictionary stuff
fershimilled - Discombobulated, but more so; incredibly confused and a tad flustered.
e.g., I was so fershimilled that I forgot my own name.
fang you - Ghoulish gratitude (contraction: "Fangs."
e.g., Count Dracula (Bela Lugosi) said, "I fang you very much!"; his fangs was a biting remark.
forrealiously - For real and seriously.
e.g., "That English test was easy!" "Forrealiously!"
http://www.pseudodictionary.com/index.php
Ahm... ok... it's an option... odd option, but an option nevertheless!!
22.12.03
Ahm... funcionará?! (que cepticismo...!)
http://seguro.infocid.pt/certidoesOnLine/HtmlFinal/index.jsp
18.12.03
Da magia de ler
Ofereceram-me um livro lindo. Dizia:
...
- É verdade que sabes ler, compadre?
- Alguma coisa.
- E que é que estás a ler?
- Um romance. Mas cala-te. Se falas, a chama mexe-se e mexem-se-me as letras.
O outro afastou-se para não estorvar, mas era tal a atenção que o velho prestava ao livro que não suportou ficar-se à margem.
- De que é que trata?
- Do amor.
Perante a resposta do velho, o outro aproximou-se com renovado interesse.
- Não me lixes. Com fêmeas ricas, das que fervem?
O velho fechou o livro num repente fazendo tremer a chama do candeeiro.
- Não. Trata-se do outro amor. Do que dói.
O homem sentiu-se decepcionado. Encolheu os ombros e afastou-se. (...)
O velho continuava na sua, (...), falando entre dentes como se estivesse a rezar.
- Anda, lê um bocadinho mais alto.
- A sério? Interessa-te?
- Digamos que sim. Uma vez fui ao cinema, em Loja, e vi um filme mexicano, de amor. Nem lhe conto, compadre. As lágrimas que me caíam.
- Então tenho que te ler desde o princípio, para saberes quem são os bons e quem são os maus.
...
O velho que lia romances de amor-- Luís Sepúlveda, Edições ASA
Obrigada!
17.12.03
Revisiting places
Agora que estou de regresso a estas lides do computador (ok, ainda de roda dos mil emails que tenho acumulados nas minhas caixas de correio...), pedem-me, das Americas, que escreva um artigo acerca dos chats da MGnet de que sou responsável. Para arranjar inspiração, revisito um artigo que escrevi há alguns anos e que, depois de tudo o que se passou no último mês, me fez um bem imenso à alma!
http://www.mgfa-mgnet.org/html/change.htm
Vamos ver se consigo escrever este artigo que me pedem de forma a poder, daqui a uns anos, dizer que não foi em vão para os que o vão ler, lá pelas Américas!
15.12.03
No es lo mismo
...
no es lo mismo ser que estar
nos es lo mismo estar que quedarse, ¡que va!
tampoco quedarse es igual que parar
no es lo mismo
será que ni somos, ni estamos
ni nos pensamos quedar
pero es distinto conformarse o pelear
no es lo mismo...es distinto
no es lo mismo arte que hartar
no es lo mismo ser justo que ¡qué justo te va!...(verás)
no es lo mismo tú que otra, entérate
no es lo mismo
que sepas que hay gente que trata de confundirnos
pero tenemos corazón que no es igual,
lo sentimos...es distinto
...
Alejandro Sanz
-- No es lo mismo, CD
Dia 1 and a huge reality check...
Hoje, pela primeira vez desde há várias semanas, voltei à so-called vida normal. Fui apresentar-me no emprego. Fui tirar umas fotocópias às Palmeiras, comprar uma prenda de anos para uma amiga minha, pagar contas, transferir cash, comprar uns CDs, namorar um telemóvel, presente de Natal para o meu irmão, enfim, tudo coisas normalíssimas.
Yet... que este pequeno passeio foi um grande reality check, foi... Tudo muito devagar, elevador para cima, elevador para baixo. De montra em montra, com descansos pelo meio, e uma pausa maior na livraria, para recuperar energia.
Hoje vi que as andanças aqui por casa, da sala para o quarto, do quarto para a cozinha, da cozinha para o terraço, não são nada e muito menos reflectem a capacidade física que temos no momento.
Bom... ainda tens muito que recuperar...
Make haste slowly
-- The New Dictionary of Cultural Literacy, Third Edition. 2002.
13.12.03
Bellevue X, etapa última ou de quando a autonomia é sinónimo de que a nossa família e amigos nos chamam de regresso a casa
Tempo de partir. A crescente restlessness dos últimos dias deixou isso bem claro. Estava na hora.
Quando me deram o go-ahead, liguei logo para casa e tudo rolou de forma a que saísse dali o mais depressa possível.
Despedi-me de todos (o que me pesou muito no coração, confesso, foi ter que me despedir daquelas parceiras de internamento, que me acompanharam nos ups and downs e ter que as deixar para trás).
Revi mentalmente tudo o que acontecera nos últimos 12 dias. As pessoas que conhecera, as situações por que passara, as hesitações, os anseios, os medos, as expectativas.
Não foram uns dias fáceis. Se me perguntassem, diria No thanks, não os quero! Mas essa opção não existiu, portanto... Há coisas que temos q engolir, como se dizia no filme do Vietname, Take the pain, take the pain...
Quando saí, lembrei-me de uma frase que disse para mim mesma n vezes... uma frase do filme do escocês... But I don't wanna lose heart! E isso não aconteceu.
Acho que ganhei!
Next!
12.12.03
Bellevue IX, de quando quinar foi mesmo quase quinar...
Se tudo está bem organizado, qualquer situação de crise é relativamente fácil de resolver. Todavia, se a abordagem é uma abordagem focalizada e não holística, o potencial para que problemas apareçam é assustadoramente grande.
Não poderia aproximar-me do fim desta catárse sem registar aqui a situação que mais me marcou ao longo da minha estadia no hospital.
É certo que sou considerada, por familiares, amigos, conhecidos, médicos até, uma pessoa bem informada acerca da Miastenia. É certo que sou uma pessoa activa nesta área, pertencendo a uma fundação internacional, com um crescente impacto na comunidade da Miastenia. E, finalmente, é certo que faço trabalho de voluntariado junto desta fundação, dinamizando, nomeadamente, chats semanais temáticos...
Contudo, em situação de crise, nada disto serve quando não nos ouvem. Nada disto serve quando insistem em confundir ansiedade com uma verdadeira incapacidade respiratória. E isto num espaço em que, pensamos nós, estamos rodeados de técnicos de saúde que sabem o que andam a fazer.
Para grande desespero meu, desespero que de mansinho se foi transformando numa fúria imensa, travada apenas pela minha total incapacidade de movimentos, ninguém me ouvia quando dizia não estar a respirar com o mínimo de condições. Inacreditável...
Assim que a minha fúria chegou ao limite, fiz aquele papel, que odeio supinamente, de refilar e empurrar quem me ouviu para se MEXER. De voz muito baixa, sem qualquer sorriso (nada comum em mim quando falo com outras pessoas), exigi falar com um médico. Só aí é que a questão se movimentou...
Pensar-se-ia, digo eu, que quem trabalha num hospital estivesse sempre atento ao que os doentes dizem. Silly me, pensar isso...
De que serviu então saber alguma coisa da MG? De que serviu andar nestas lides há 20 e tal anos? De que serviu tudo o que fiz até aqui? De nada... rigorosamente.
Assustador, não é?
Mas de todas as más experiências há sempre lições que se tiram. E também eu tirei algumas.
Uma está directamente relacionada com a forma de abordar a questão da MG a próxima vez (que não aconteça uma próxima vez, puxa... knock on wood). Não será na base da informação, não será na base de haver um médico a informar os seus colegas. Será na base da exigência. Quero aqui um especialista, antes de cortarem, abrirem, whatever, seja o que for!
Mas a mais importante, a verdadeira lição, foi a lição de humanidade. Enquanto me concentrava em respirar e em continuar viva (não, não é dramatismo meu, esta afirmação...), houve doentes, colegas de quarto, que conversando comigo, dando-me água, emprestando-me revistas (que não consegui sequer ler...), levantando-me a almofada, puxando-me os lençóis que teimavam em escorregar, mostraram que é mesmo in a God forsaken place que o que há de melhor em cada um de nós surge.
11.12.03
Bellevue VIII, de quando uma maquineta de SPO2 acordou a minha fúria
Se há coisa que me irrite é as pessoas fazerem afirmações peremptórias acerca de assuntos sobre os quais não fazem a menor ideia.
Hoje rio-me, que foi uma situção da treta... Mas na altura fiquei do mais danada que há!
Por causa daquele pequeno embróglio respiratório... bom... pequeno, quer dizer, mais ou menos pequeno... quer dizer... pronto, não conseguia respirar de todo, foi isso... puseram-me uma maquineta linda, com um monitor fantástico, percorrido por uma linha verde que se movimentava conforme... conforme... bom... conforme qualquer coisa que acontecia (aqui, que ninguém nos ouve, acho que era conforme o mau humor do pessoal...mas pshhhhhhhh...) e que apitava freneticamente, numa cadência hipnotizante.
Ora, como se está a adivinhar, tal apitanço alegre não favorecia um soninho abençoado. Eu nem notei, que estava mais preocupada com outras coisas, confesso, nomeadamente continuar viva!, mas houve, de facto, quem se queixasse e eu compreendo... que aquilo era mesmo irritante!
Resultado, uma tarde, enquanto recebia as visitas costumeiras, a enfermeira virou-se para mim e, com um ar solene, disse sabe, hoje à noite tem que deixar que lhe coloquem o aparelho para medir o oxigénio. Fiquei perplexa a olhar para ela. Deixar?? Mas eu alguma vez não deixei alguma coisa aqui?? Ah, que tinha sido essa a informação que lhe tinha chegado... Bom, deu-me um ataque de fúria, que prefiro não reproduzir aqui, por vergonha apenas, e terminei perguntando quem é que lhe tinha dado essa informação. Não mo disse.
Escusado será dizer que fiquei a remoer, a remoer... até que mais tarde, em conversa com uma outra enfermeira, lhe disse, não esquecer a maquineta, que já levei uma descompostura... porquê?!, perguntou a enfermeira, por "me ter negado" a colocar aquilo.
Recusado?? Não foi nada disso que foi dito. O que se disse foi que a senhora da cama ao seu lado estava constantemente a refilar por causa do bip-bip do aparelho, foi isso!
Ahhhhhhhhhhhh!
A primeira reacção foi a de esclarecer o assunto junto da primeira enfermeira... mas depois pensei... para quê?? Não interessa nada! Coisa pequena...
Mas que aquela questão da maquineta me tirou do sério, tirou, puxa!
É o mal de se ter pouco que fazer!!! (sorriso!)
10.12.03
Bellevue VII, de quando um rosto é uma vida
Depois de alguns dias a gozar da hospitalidade do Bellevue, chega à enfermaria uma senhora, velhotinha (vim a saber mais tarde que tinha 91 anos!), acabada de operar.
Dado que a maior parte dos doentes ali internados são pessoas de muita idade, algumas sem saberem bem onde estavam, chamando pelos filhos, gritando durante a noite em desespero, aquele desespero cheio de solidão, perdidos do seu espaço e dos rostos que lhes são familiares, pensei, erradamente, que senhora também seria assim. Não era.
91 anos de lucidez, de simpatia, de estórias, de força e de uma teimosia de viver! Um encanto!
Muitas manhãs passei a conversar com ela, muita risota houve (que tinha um sentido de humor fantástico!), e também algumas lagrimitas, em especial quando falou da sua máquina de costura, dizia que quando estava triste, era com ela que chorava. Uma vida inteira de um nunca desistir, de Lisboa para África, de África para Lisboa, curiosamente para Oeiras!, ainda vamos um dia destes tomar um café as duas, dizia-lhe eu! Com todo o gosto, respondia-me, sorridente!
Eu quando for grande também quero ser uma pessoa assim!
Bellevue VI, Blue-eyes and Smiley-face
Quando vim de um Bellevue para o outro, sim que quando se acabou de ser operado há umas horitas, poucas..., dá sempre muito jeito andar a passear por Lisboa, é uma ambição pessoal aquele passeio..., levaram-me numa maca para dentro de uma ambulância toda modernaça (bom, n tenho a certeza, parecia modernaça... mas também para quem ainda estava do mais KO que pode haver, qualquer ambulância parece fantástica só pela ânsia de mudar de ares).
Dois indivíduos. Bem dispostos. Estava sol.
E não se esqueceram de trazer o frasquito com aquele calhau YUCK que os doutores me ofereceram, simpáticos, de recuerdo. Admiraram o calhau (foi mesmo ali com eles que o fenómeno inexplicável da admiração do calhau teve o seu início) e fartaram-se de insistir para que o guardasse, apesar de eu, toda enfaixada numa maca para anoréxicos de tão estreita que era, sem me poder mexer, com tubos e tubinhos por todos os lados, usasse a única arma de que dispunha... o meu discurso... que não, que era uma patetice guardar aquilo, que não, que não, que não... e eles que sim, que era uma recordação engraçada (como se eu tivesse ido ao México e tivesse decidido trazer de lá uma pedrita qualquer diferente, a marcar a viagem turística!).
Achei graça quando um deles, Blue-eyes (como é possível uma pessoa ter uns olhos tão azuis), agarrou no frasco do calhau, o observou de todos os ângulos e pontuou: isto realmente... uma coisa destas a entupir aí dentro um canal qualquer não devia ser lá muito saudável não!
E eu, cheia de dores por causa do Smiley-face, condutor alegre e gozão, ter feito o favor de passar por cima de cada pedrinha da calçada que existe entre um Bellevue e o outro, à velocidade luz, claro, que ainda havia muito transporte para fazer, dizia, achando eu que talvez não chegasse inteira à minha nova morada, mas também WHO CARES?!, o que eu queria era que a viagem, que tinha começado tão bem, com um solinho lindo, e a perspectiva de um passeio, ainda que curto, ok, mas passeio na mesma, terminasse depressa!
De uma coisa não me conformo. Quando saímos do Bellevue primeiro, o Smiley-face pergunta-me, sorridente, se eu tenho algum pedido a fazer, de percurso, bem entendido. Eu que não, apenas que, por ser a minha primeira vez a andar de ambulância, queria os tinonis a tocar. Riu-se, imagine-se, não entendi! Bom, lá fomos, e dos tinonis nada... De vez em quando um "TIUUU" (nem sei bem qual a onomatopeia a usar aqui...!), para desviar o trânsito, invariavelmente amalgamado em tudo o que era cruzamento!
Também lhe disse, sorrindo, tinonis nada, 'tou zangada consigo!
Bellevue V, Dador nº 3630
Há algures no mundo uma pessoa que deu sangue, que ofereceu um pouco de si. Por causa desta pessoa, sinto-me melhor. Foi o Dador nº3630.
Amazing , huh? Por detrás deste número está um ser humano, que um dia decidiu sair da sua rotina, deslocar-se a um dos pouquíssimos sítios onde se faz recolha de sangue, ficar ali sentado uma meia horita, de braço esticado, talvez a observar a sua dádiva, talvez a pensar na pessoa que receberia o seu sangue. Que seria eu.
Dador nº 3630. Amazing.
9.12.03
Bellevue IV, de um passeio nocturno de paz
Num hospital, onde tudo é diferente e agressivo, por ser desconhecido, curiosamente a falta de estímulos (não há quadros nas paredes, nem estantes com livros, nem pessoas sorridentes, nem luzes a piscar, nem nada de nada!) faz com que qualquer pequeno acontecimento tenha proporções de evento nacional.
Volta-me à memória aquela noite em que, cansada das insónias que me invadiam, atrevidas, instaladas comodamente em mim, me levantei da caminha (sim, já me conseguia levantar! Yippie!) e, altas horas da noite (nem vi que horas eram para não alegrar ainda mais as intrometidas), dei um belo de um passeio, corredor fora, acompanhada, pois claro, pelo Fininho (suporte para soro, nada de confusões, que aquilo era uma enfermaria só para senhoras, atenção!) rolando alegremente.
O corredor devia ter a bela extensão de uns... deixa ver... deixa ver... compridíssimos... o quê... talvez... ahm... 50 metros? Enorme! Não é brincadeira!
Do meu quarto, sensivelmente a 4/5s do corredor, caminhei, segura... agarrada ao Fininho, claro, que as pernas tremiam mais que varas verdes... primeiro para a esquerda e depois de regresso. Passo a passo, devagarinho. Não os contei, mas tive a necessidade de parar ao fundo do corredor e de ficar a ler (i.e. descansar, mas pshhhhhhhhh é segredo!) umas brochuras em que nunca tinha reparado, fantasticamente elaboradas, digo desde já, com uns bonecos interessantíssimos, que na verdade mal vi, tal como os textos, admito, por causa da pitosguice crónica, pois tinha deixado os ólicos no quarto e nem pensar ia voltar atrás só para poder ler as benditas brochuras!
Naquele passeio nocturno, ainda se sobressaltou uma auxiliar pensando que eu precisaria de ajuda (há gente bonita que se preocupa). Tranquilizada a auxiliar com um sorriso, avancei corajosa, destemida, intrépida... PÁRA!... corredor fora, ouvindo a linda sinfonia de polifónicos ressonares (havia trombones, havia trombetas, havia até um comboio e uma máquina a vapor).
Quando me deitei novamente, estoirada de tamanha aventura, espreitei a minha janela, de longe, que a minha cama estava junto à porta. O Tejo tinha umas luzinhas, talvez fossem pirilampos (bendita pitosguice)!
Bellevue III, pensamentos da imobilidade
Quando estamos imóveis, por vontade própria, temos sempre a opção de, quando bem nos aprouver, nos voltarmos a mexer.
Contudo, quando somos forçados a estar num estado de imobilidade, nada de sustos, mas de facto foi mesmo assim, de imobilidade, dizia eu, total, a história é totalmente diferente.
Passam-nos pela cabeça todo o tipo de coisas, das mais tolas, às mais sérias. Passa-nos pela cabeça uma avalanche de dúvidas e de certezas, sim que as certezas também nos passam pela cabeça pelo simples exercício de as testar e tentar transformar em dúvidas... coisas de quem não tem nada que fazer, há que dar um desconto!
Pensamos,
quando saímos daqui? Nunca!
qual a primeira coisa que faremos quando sairmos? (a lógica! primeiro não saíamos de todo...!!)
quando voltamos aos nossos queridos turistas? (suspiro!)
será que o colchão em casa ainda se lembra das manias dorminhocas e revoltosas da dona?
será que ainda sabemos escrever? Afinal já não usamos uma caneta há quase duas semanas!
Também pensamos que a vida às vezes não tem sentido, que às vezes gostaríamos de estar noutro lugar, com outras pessoas, a fazer outras coisas, que não nos apetece mais...
Mas pensamos logo então que todo o caminho que percorremos até ali não pode ser deitado fora, que deu um trabalhão imenso a fazer. Que por muito desistentes que o momento e o espaço de dor nos obrigue a ser, temos aquela incontornável mania de querer viver, de querer passar além do que foi mau e olhar para um horizonte. Que raio de mania, eu sei... Teimosia... eu sei... Mas há imobilidades que nos enchem de uma teimosia imensa, que nos enchem de uma fúria de vida, daquela fúria de quem ainda não chegou àquele tempo do fim.
Era eu, imóvel, em fúria.
Bellevue II e os voantes rasantes à minha janela!
Eu tinha uma janela. Era a segunda a contar da esquerda e deixava ver o rio Tejo. Deixava ver também um mundo de vidas. Os barcos que saíam ao fim-de-semana, os paquetes iluminados em festa, as luzes daquelas casitas espalhadas pelo monte, as lindas estruturas das fabriquetas ou cimenteiras ou lá o que são aquelas coisas de alto valor arquitectónico que estão plantadas do outro lado do rio, os cacilheiros, os navios de guerra, nossos e de outros (bem tentei ver de quem eram, mas esta pitosguice crónica não deixou!) e, acima de tudo, mais importante que tudo o resto, os voantes!
Não sei se imaginei (vide pitosguice...), mas vi gaivotas, andorinhas e pombos! Voavam ao longe e ao pertinho! Acho até que havia uma série de pombas que se protegiam da chuva nos beirais das janelas do hospital. Faziam voos rasantes à parede e desapareciam de vista numa proximidade que deixava adivinhar uns momentos de descanso.
Um dia, pousou uma pomba mesmo à janela, à minha janela, a segunda a contar da esquerda. Primeiro olhou para a vista lindíssima que se tem sobre o Tejo. Depois ajeitou-se na sua certeza de voante pousado num beiral emprestado. Então, num repente de curiosidade, olhou para dentro do quarto! Virou a cabeça para a esquerda e para a direita, naquele movimento tão característico de um voante, e espreitou aquelas seis almas que, calmamente, ali descansavam. Por fim, levantou voo e partiu. Eu parti também, acho! Que ainda pensei no voante uns tempos!
Sorri. Nunca pensei que um voante olhasse para mim e me levasse consigo!
Bellevue I e a minha amiga campainha!
Sempre achei que azucrinar a paciência às enfermeiras e auxiliares, tocando ininterruptamente a campainha, não era de todo má ideia quando pouco nos ligam, quando nos levam a medicação, religiosamente, à hora errada, quando insistem em nos deixar o leite do pequeno-almoço, a sopa do almoço, o café do lanche, o bife do jantar e o chá da noitinha na mesa-de-cabeceira, totalmente fora do nosso alcance. Contudo, portei-me bem e toquei apenas quando, de facto, precisava de ajuda. Na angústia de um tempo que nunca mais passa e de um certo desnorte na compreensão daquela criatura (eu!) que insiste em ter os medicamentos fora da hora a que se dá a medicação ao resto dos doentes (que raio de complicómetra que quer aquilo de 4 em 4 horas... pensam elas, como mandou o médico... digo eu) afeiçoo-me à campainha.
A campainha, estranho objecto com um moderníssimo visual , a destoar marcadamente do ambiente anos-troca-o-passo, aconchegou-se na minha mão, tal ET arredondado (sim que a luz vermelha, de noite, me fazia lembrar o extraterrestre que nos faz verter uma lagrimita com o seu "Home..." nostálgico), adormeceu na minha mão e percorreu comigo as noites chuvosas que invadiam o Tejo.
De quando em quando, lá funcionava a campainha pós-moderna, criando grande agitação nas hostes, divididas entre a preocupação de a desligar sem saber bem onde (no botão verde, minhas senhoras, no botão verde!) e a urgência do auxílio a prestar.
Ficámos amigas, a campainha e eu, ficámos!
4.12.03
LUA DE MEL
Pois é! Agora tudo é lindo! Ando na fase do sorriso!
Who cares que esteja constipada?
Who cares que subir as escadas seja um esforço desgraçado que me deixa sem fôlego?
Who cares que tenha que estar ainda uma semana e tal de castigo em casa?
Who cares que todos admirem a minha pedra, aquela coisa totalmente yuck, que os médicos amigos resolveram oferecer-me de recuerdo?
Who cares??
O que interessa é que saí daquela casa dos horrores!
(bem feito, que andaste aqui a escrevinhar umas coisas há uns tempos a criticar quem saía dos hospitais de cara fechada, que não compreendias, patati patata... agora já sabes!)
As rotinas recuperam-se e tenho uma semana para as organizar na sua totalidade.
Aqui registarei alguns, ok... muitos.. pelo menos é esse o plano (coragem, aos que sobrevivem às leituras aqui e não adormecem!) momentos que foram desfilando por esta minha breve vida de 12 dias.
Necessidade de catárse?
Yes, totalmente.
Num hospital acontecem coisas que nos rasgam a alma (já para não falar do corpo...) e coisas que nos enchem de uma vontade imensa de viver!
Conjugação do verbo viver
Presente do Indicativo
eu vivo
-- Dicionário Universal da Língua Portuguesa, Texto Editora
I AM!
Regressei.
O mundo, que parecia tão lento e fora do tempo, afinal não fez com que o outro mundo cá fora tivesse parado também! Tontice achar que sim, eu sei. Contudo, na ânsia de não nos perdermos daqueles de quem gostamos, achamos sempre que tudo fica à nossa espera. Nada mais errado.
No regresso, essa realidade explode mesmo à frente do nosso nariz quando, logo à porta de casa, vemos que a àrvore do parque está despida de folhas, que há um vaso novo no terraço, que os enfeites de Natal adornam a sala de estar e as escadas e que o gato tem vestido o seu casaco de Inverno!
Como soi dizer-se, e apesar de todas as mudanças, Home sweet home!
