Kommienezuspadt
9.12.03
 
Bellevue III, pensamentos da imobilidade
Quando estamos imóveis, por vontade própria, temos sempre a opção de, quando bem nos aprouver, nos voltarmos a mexer.
Contudo, quando somos forçados a estar num estado de imobilidade, nada de sustos, mas de facto foi mesmo assim, de imobilidade, dizia eu, total, a história é totalmente diferente.
Passam-nos pela cabeça todo o tipo de coisas, das mais tolas, às mais sérias. Passa-nos pela cabeça uma avalanche de dúvidas e de certezas, sim que as certezas também nos passam pela cabeça pelo simples exercício de as testar e tentar transformar em dúvidas... coisas de quem não tem nada que fazer, há que dar um desconto!
Pensamos,
quando saímos daqui? Nunca!
qual a primeira coisa que faremos quando sairmos? (a lógica! primeiro não saíamos de todo...!!)
quando voltamos aos nossos queridos turistas? (suspiro!)
será que o colchão em casa ainda se lembra das manias dorminhocas e revoltosas da dona?
será que ainda sabemos escrever? Afinal já não usamos uma caneta há quase duas semanas!
Também pensamos que a vida às vezes não tem sentido, que às vezes gostaríamos de estar noutro lugar, com outras pessoas, a fazer outras coisas, que não nos apetece mais...
Mas pensamos logo então que todo o caminho que percorremos até ali não pode ser deitado fora, que deu um trabalhão imenso a fazer. Que por muito desistentes que o momento e o espaço de dor nos obrigue a ser, temos aquela incontornável mania de querer viver, de querer passar além do que foi mau e olhar para um horizonte. Que raio de mania, eu sei... Teimosia... eu sei... Mas há imobilidades que nos enchem de uma teimosia imensa, que nos enchem de uma fúria de vida, daquela fúria de quem ainda não chegou àquele tempo do fim.
Era eu, imóvel, em fúria.


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