Kommienezuspadt
16.9.06
 

Ainda das gaivotas

13.9.06
 

Hehehehe! Obrigada, J. De facto, slightly cracked! Aqui fica o registo, para a posteridade! **
 
Ferien!
Rotinas
Regressa-se à base e regressam também as rotinas, as outras. Desaparecem as desrotinas, os dias sem horários. Passamos a andar de relógio, não nos vá falhar o telemóvel e o seu relógio implacável. Num repente, não conseguimos estar sem fazer nada, só a olhar para o céu que se encheu de nuvens a anunciar a chuvada prometida pelos senhores que adivinham o tempo. Dos livros, das suas páginas e da sua magia, já não conseguimos tirar a tranquilidade que nos embalava de mansinho. Apressam-se as folhas por entre os minutos que roubamos ao tempo que deveríamos passar a fazer tudo aquilo que temos a obrigação de fazer. Daqui a um ano, regressamos!

 
Ferien!
Peixe
Eu, Maria anti-peixe, ando por aqui na senda do peixe fresco, alegre da vida, comendo daquilo que desdenho ao longo do ano. Não sei se é do criado de mesa e dos seus olhos azuis que me levam até longe ou se é do ar frescote das noites. Não sei se é da risota contínua ou da loucura de não haver nada que não se possa fazer em férias. Na verdade, o oposto também é verdade. Não ter que fazer isto ou aquilo, não haver horários, fazer apenas e só o que apetece, literalmente, abre o gosto à experimentação, às sugestões alheias e a novas paisagens gastronómicas. Eu, Maria anti-peixe, já comi mais peixe em férias do que durante todo o ano que passou. Hoje comi um peixe “entalado”… Não, não era assim. Era… “estalado”… “escaldado”… Não… “escalado”! Um mistério, para mim que não entendo patavina de culinária e dos seus segredos, mas que raio é um peixe “escalado”! Bom, é tão simples quanto “cortado ao meio”! Ainda pensei que fosse maluquice local, mas parece que não. Parece, pois, que não tenho a certeza de nada. Já estou como o outro, só sei que nada sei! Mas lá que o “entalado” (!) estava bom, lá isso estava! E isto vindo de alguém que tem um problema de compatibilidade com aquele alimento tão saudável chamado… peixe.

 
Ferien!
Entediados
Já há muito tempo que não via uma população masculina tão numerosa e tão entediada. É certo que as férias não são fáceis para ninguém, a não ser que sejam a dois e mesmo assim…!
Passam várias vezes, lânguidos e perdidos, pelo mesmo caminho, Arrastam atrás de si o resto da família, saturados de andarem de um lado para o outro a um ritmo rápido demais para quem passou o dia todo a apanhar sol na moleirinha e a esfalfar-se em nadamentos exibicionistas a que os pais não ligaram peva.
Uns ainda empurram os carrinhos de bebé enquanto as mulheres carregam com os sacos e as crianças restantes com os brinquedos de praia, comprados para que se entretenham sozinhos.
Nos restaurantes, olham, alheados, para o infinito, como se estivessem sozinhos no mundo e não a uma mesa cheia de gente aos saltos e com fome que uma mãe desesperada tenta, em vão, organizar. Passam o jantar a responder por monossílabos. Quando em frente de uma objectiva, fazem um sorriso forçado. E olham, olham para as miúdas com metade da idade deles que, alegres e joviais, falam umas com as outras. Sonham com tempos passados, fartos dos tempos presentes em que, de repente, se apanharam encurralados. Entediados…

 
Ferien!
O bar
Naquele bar há uma dança. Não é uma dança qualquer. É uma dança enigmática, coreografada. Quem não a conhece corre o risco de ficar mal visto. Há que prestar atenção, muita atenção.
Primeiro entra-se no bar. Olha-se para todos os lados com um ar confiante. Depois, quando já todos se habituaram à nossa presença, aproximamo-nos do balcão do bar e pedimos uma bebida qualquer, com descontracção, sem olhar para todos os lados com um ar aflito de cria abandonada. E voltamos a afastar-nos do balcão.
Depois de alguns minutos, vamos buscar a nossa bebida e encostamo-nos àquelas mesas ridículas na sua pequenez minimalista, encostadas à parede, na quase total escuridão. Será esta a minha bebida? Tem um sabor diferente…
Quando a leva de gente que estava ao balcão se afasta e vagam uns lugaritos, avançamos, destemidos, e sentamo-nos nuns bancos de pé alto bons para cair da tripeça…! Penso sempre, é agora que vou partir uma perna, quando descer daqui, mas depois acalmo-me e lembro-me de que estou num espaço em que a densidade populacional é uma das mais elevadas no mundo! Nem na China, nem na China! Alguém há-de ter a amabilidade de me amparar o tombo!
O tempo vai passando e a conversa também. Olhares gulosos percorrem as pernas das miúdas empoleiradas naqueles bancos de pedestal. Entretanto outras ondas de gente se aproximam, fartas de estar, também elas, na sua dança, à espera de um lugar ao balcão. Começamos a sentir uma pressão de desconforto e olhamos para a esquerda e para a direita à procura de uma mesa. Nada. Fingimos que não percebemos a pressão e continuamos por ali. E a dança continua. Empurram-nos com os cotovelos enquanto se esticam para ir buscar as suas bebidas ao balcão, como nós antes fizéramos também. Farto-me daquilo e num ataque de claustrofobia aguda, digo “ vamos embora” e vamos.
Esta dança não é para mim! Bazando!

 
Ferien!
Desrotinas
A simplicidade das desrotinas de férias é reconfortante.
Em casa tudo se emaranha, por muito que nos esforcemos para que tal não aconteça.
Aqui não. Às 8 da matina já não dormes que a Câmara Municipal tem que pôr aquela mini rotunda e aquele triângulo ali, cortando aqueles calhaus com uma máquina que se ouve em Lisboa, enquanto ainda estás grogue de sono. Também há umas maquinetas no prédio da frente, que quando fazem marcha-atrás apitam de tal forma que parecem anunciar uma crise eminente. Resultado, está na hora de levantar! O gato, que não é parvo, está a dormir desde que me levanto, enfiado no armário da roupa, no escurinho e no resguardo das loucuras sonoras.
Os luxos diários continuam. Leio o jornal (quem diria, ler o jornal todos os dias, fresquinho, acabado de sair!) e tomo o pequeno-almoço com pão fresco e manteiga e um belo copo de leite com chocolate.
Ao meio-dia pára tudo, homens, máquinas, gaivotas. Parece até que o trânsito diminui. Almoço. Regressarão dentro de uma hora.
Quando a companhia regressar da praia, também nós almoçamos, qualquer coisa leve e gelatina, que adoro. Ouve-se as notícias na TV e depois vem a siesta, duas horitas de não fazer nada.
O jantar aqui é quase sempre peixe. Passeio, para ver novas caras, novas coisas e para nos admirarmos com as pequenas novidades – o restaurante italiano passou a chinês, a rapariga que faz as trancinhas no cabelo está grávida, o parque de estacionamento tem umas tarifas malucas de 15 em 15 mins, o tipo do restaurante pespegou dois beijinhos tão de repente no mulherio que ficou tudo meio aparvalhado, o que achei graça, e as ruas estão cheias de rastas de faz-de-conta. Também temos o caricaturista crónico, que todos os anos se senta no mesmo canto da praça, o homem-estátua, com uma enigmática túnica branca que não tem muito a ver com o personagem, as mesmas lojas, as mesmas caras.
Há algo de animador neste regresso anual. Há coisas novas, mas, no essencial, pouco mudou e isso é reconfortante.

 
FERIEN!
Gaivotas
Se há coisa que me anime nestes dias de férias é ouvir as gaivotas a discutir! Acotovelam-se no braço do guindaste e discutem ferozmente. A minha mãe acha que combinam estratégias para reuniões altamente secretas e de importância extrema. Eu acho que se irritam com a liberdade alheia de contornos atrevidos e populistas. Gritam, enquanto voam, aproveitando a direcção do vento. Planam, enquanto traçam a rota que as levará a pousar, todas afastadas umas das outras para evitar conflitos, no tal braço do guindaste.
Também há as rebeldes, aquelas que recusam juntar-se à turba de penas e asas e gritaria. Pousam nas chaminés dos prédios, aos pares, deitam-se, de cansaço ou para evitar o vento, não sei, e ficam ali, expectantes de uma outra qualquer gaivota que passe por perto. Então, num assomo de coragem, ou rebeldia, lançam-se num voo circular, apanhando as correntezas invisíveis.
Eu prefiro as que discutem. Não sei porquê! Mas prefiro quando se juntam às dezenas e se acotovelam por um espacinho seu. Prefiro quando, para arrancarem uns míseros centímetros para o seu descanso, empurram as parceiras do seu poleiro, parceiras que gritam cheias da irritação de quem vê o seu descanso interrompido. Acho-lhes graça! Acho-as quase humanas. E tão diferentes daquelas gaivotas que via na praia, muito senhoras de si, muito flutuantes, muito dignas. Não sei, mas, de repente, foi como se as gaivotas fossem tão tangíveis nas suas pequenas imperfeições como nós.


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