25.12.03
Aniversário
Hoje seria o teu aniversário. 93 anos. Aqui, que nos chegamos ao que sempre conhecemos, ainda é o teu aniversário, mesmo que tu por cá já não estejas.
Ao virar da meia-noite, todos olharam para o relógio e houve assim uma espécie de paragem, uma fracção de segundo, aquela em que todos saltávamos e gritávamos "PARABÉNS!". Agora não o fazemos, mas a hesitação, o momento continua a existir, mesmo que ninguém o verbalize. Entreolhamo-nos e sabemos bem em quem é que cada um de nós está a pensar. E falamos então de ti, porque se pôs a toalha de Natal que costumavas pôr em tua casa, porque se acenderam velas por todos os cantos da sala e tu gostavas de velas, porque cantávamos os parabéns e sopravas as velas fininhas do bolo e ficavas, elegante, sempre elegante, sentado à mesa, muito direito, para a fotografia da praxe.
Nesta altura, desde que partiste, fico com a sensação de que falta comprar duas prendas - uma de Natal e uma de aniversário e dou por mim a olhar para os apetrechos de cachimbo, a pensar se precisarás de uma caixinha nova para guardar o tabaco ou de uma embalagem de filtros ou de um aparelhito para arrumar o tabaco dentro do cachimbo. Dou por mim a olhar para os CDs e a pensar se gostarias deste ou daquele concerto. Dou por mim a ver os livros de imagens de Lisboa e pensar se preferias este ou aquele ali na prateleira sobre Luanda.
Confesso que me esqueço... Confesso, na verdade, que não faço muito esforço para me lembrar que já não vamos cantar os parabéns, que já não soprarás as velas e que já não se tirará a fotografia da praxe.
A última que se tirou foi quando fizeste 91 anos. Está no placard do meu quarto. Sorris, olhando para o bolo, e apreciando a atenção de toda a gente, tu que abrias esta excepção neste dia especial.
I sure miss you.
