9.12.03
Bellevue IV, de um passeio nocturno de paz
Num hospital, onde tudo é diferente e agressivo, por ser desconhecido, curiosamente a falta de estímulos (não há quadros nas paredes, nem estantes com livros, nem pessoas sorridentes, nem luzes a piscar, nem nada de nada!) faz com que qualquer pequeno acontecimento tenha proporções de evento nacional.
Volta-me à memória aquela noite em que, cansada das insónias que me invadiam, atrevidas, instaladas comodamente em mim, me levantei da caminha (sim, já me conseguia levantar! Yippie!) e, altas horas da noite (nem vi que horas eram para não alegrar ainda mais as intrometidas), dei um belo de um passeio, corredor fora, acompanhada, pois claro, pelo Fininho (suporte para soro, nada de confusões, que aquilo era uma enfermaria só para senhoras, atenção!) rolando alegremente.
O corredor devia ter a bela extensão de uns... deixa ver... deixa ver... compridíssimos... o quê... talvez... ahm... 50 metros? Enorme! Não é brincadeira!
Do meu quarto, sensivelmente a 4/5s do corredor, caminhei, segura... agarrada ao Fininho, claro, que as pernas tremiam mais que varas verdes... primeiro para a esquerda e depois de regresso. Passo a passo, devagarinho. Não os contei, mas tive a necessidade de parar ao fundo do corredor e de ficar a ler (i.e. descansar, mas pshhhhhhhhh é segredo!) umas brochuras em que nunca tinha reparado, fantasticamente elaboradas, digo desde já, com uns bonecos interessantíssimos, que na verdade mal vi, tal como os textos, admito, por causa da pitosguice crónica, pois tinha deixado os ólicos no quarto e nem pensar ia voltar atrás só para poder ler as benditas brochuras!
Naquele passeio nocturno, ainda se sobressaltou uma auxiliar pensando que eu precisaria de ajuda (há gente bonita que se preocupa). Tranquilizada a auxiliar com um sorriso, avancei corajosa, destemida, intrépida... PÁRA!... corredor fora, ouvindo a linda sinfonia de polifónicos ressonares (havia trombones, havia trombetas, havia até um comboio e uma máquina a vapor).
Quando me deitei novamente, estoirada de tamanha aventura, espreitei a minha janela, de longe, que a minha cama estava junto à porta. O Tejo tinha umas luzinhas, talvez fossem pirilampos (bendita pitosguice)!
