Kommienezuspadt
18.12.03
 
Da magia de ler
Ofereceram-me um livro lindo. Dizia:

...
- É verdade que sabes ler, compadre?
- Alguma coisa.
- E que é que estás a ler?
- Um romance. Mas cala-te. Se falas, a chama mexe-se e mexem-se-me as letras.
O outro afastou-se para não estorvar, mas era tal a atenção que o velho prestava ao livro que não suportou ficar-se à margem.
- De que é que trata?
- Do amor.
Perante a resposta do velho, o outro aproximou-se com renovado interesse.
- Não me lixes. Com fêmeas ricas, das que fervem?
O velho fechou o livro num repente fazendo tremer a chama do candeeiro.
- Não. Trata-se do outro amor. Do que dói.
O homem sentiu-se decepcionado. Encolheu os ombros e afastou-se. (...)
O velho continuava na sua, (...), falando entre dentes como se estivesse a rezar.
- Anda, lê um bocadinho mais alto.
- A sério? Interessa-te?
- Digamos que sim. Uma vez fui ao cinema, em Loja, e vi um filme mexicano, de amor. Nem lhe conto, compadre. As lágrimas que me caíam.
- Então tenho que te ler desde o princípio, para saberes quem são os bons e quem são os maus.
...
O velho que lia romances de amor-- Luís Sepúlveda, Edições ASA

Obrigada!


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