9.12.03
Bellevue I e a minha amiga campainha!
Sempre achei que azucrinar a paciência às enfermeiras e auxiliares, tocando ininterruptamente a campainha, não era de todo má ideia quando pouco nos ligam, quando nos levam a medicação, religiosamente, à hora errada, quando insistem em nos deixar o leite do pequeno-almoço, a sopa do almoço, o café do lanche, o bife do jantar e o chá da noitinha na mesa-de-cabeceira, totalmente fora do nosso alcance. Contudo, portei-me bem e toquei apenas quando, de facto, precisava de ajuda. Na angústia de um tempo que nunca mais passa e de um certo desnorte na compreensão daquela criatura (eu!) que insiste em ter os medicamentos fora da hora a que se dá a medicação ao resto dos doentes (que raio de complicómetra que quer aquilo de 4 em 4 horas... pensam elas, como mandou o médico... digo eu) afeiçoo-me à campainha.
A campainha, estranho objecto com um moderníssimo visual , a destoar marcadamente do ambiente anos-troca-o-passo, aconchegou-se na minha mão, tal ET arredondado (sim que a luz vermelha, de noite, me fazia lembrar o extraterrestre que nos faz verter uma lagrimita com o seu "Home..." nostálgico), adormeceu na minha mão e percorreu comigo as noites chuvosas que invadiam o Tejo.
De quando em quando, lá funcionava a campainha pós-moderna, criando grande agitação nas hostes, divididas entre a preocupação de a desligar sem saber bem onde (no botão verde, minhas senhoras, no botão verde!) e a urgência do auxílio a prestar.
Ficámos amigas, a campainha e eu, ficámos!
