Kommienezuspadt
9.12.03
 
Bellevue II e os voantes rasantes à minha janela!
Eu tinha uma janela. Era a segunda a contar da esquerda e deixava ver o rio Tejo. Deixava ver também um mundo de vidas. Os barcos que saíam ao fim-de-semana, os paquetes iluminados em festa, as luzes daquelas casitas espalhadas pelo monte, as lindas estruturas das fabriquetas ou cimenteiras ou lá o que são aquelas coisas de alto valor arquitectónico que estão plantadas do outro lado do rio, os cacilheiros, os navios de guerra, nossos e de outros (bem tentei ver de quem eram, mas esta pitosguice crónica não deixou!) e, acima de tudo, mais importante que tudo o resto, os voantes!
Não sei se imaginei (vide pitosguice...), mas vi gaivotas, andorinhas e pombos! Voavam ao longe e ao pertinho! Acho até que havia uma série de pombas que se protegiam da chuva nos beirais das janelas do hospital. Faziam voos rasantes à parede e desapareciam de vista numa proximidade que deixava adivinhar uns momentos de descanso.
Um dia, pousou uma pomba mesmo à janela, à minha janela, a segunda a contar da esquerda. Primeiro olhou para a vista lindíssima que se tem sobre o Tejo. Depois ajeitou-se na sua certeza de voante pousado num beiral emprestado. Então, num repente de curiosidade, olhou para dentro do quarto! Virou a cabeça para a esquerda e para a direita, naquele movimento tão característico de um voante, e espreitou aquelas seis almas que, calmamente, ali descansavam. Por fim, levantou voo e partiu. Eu parti também, acho! Que ainda pensei no voante uns tempos!
Sorri. Nunca pensei que um voante olhasse para mim e me levasse consigo!


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