10.12.03
Bellevue VII, de quando um rosto é uma vida
Depois de alguns dias a gozar da hospitalidade do Bellevue, chega à enfermaria uma senhora, velhotinha (vim a saber mais tarde que tinha 91 anos!), acabada de operar.
Dado que a maior parte dos doentes ali internados são pessoas de muita idade, algumas sem saberem bem onde estavam, chamando pelos filhos, gritando durante a noite em desespero, aquele desespero cheio de solidão, perdidos do seu espaço e dos rostos que lhes são familiares, pensei, erradamente, que senhora também seria assim. Não era.
91 anos de lucidez, de simpatia, de estórias, de força e de uma teimosia de viver! Um encanto!
Muitas manhãs passei a conversar com ela, muita risota houve (que tinha um sentido de humor fantástico!), e também algumas lagrimitas, em especial quando falou da sua máquina de costura, dizia que quando estava triste, era com ela que chorava. Uma vida inteira de um nunca desistir, de Lisboa para África, de África para Lisboa, curiosamente para Oeiras!, ainda vamos um dia destes tomar um café as duas, dizia-lhe eu! Com todo o gosto, respondia-me, sorridente!
Eu quando for grande também quero ser uma pessoa assim!
