6.4.06
Writings I
2 little whos
(he and she)
e.e.cummings
Não sabia se era raiva ou se era ódio. A mentira alagara cada dia, inundara cada momento. Infiltrara-se pela trama de histórias que não reflectiam o que ele vivia, mas apenas o que podia inventar de improviso, estéril de emoção, a evitar enredar-se na incoerência do pormenor. Depois veio aquele olhar. Vagueava entre a ingénua expectativa de que nada iria mudar e a vaga certeza de que tudo era já diferente. Contudo, continuava a insistir na hesitação da palavra, no não saber do futuro, na meia verdade, aquela que encerra em si a omissão óbvia, a de que o infinito vazio não era apenas o do futuro não cumprido, mas o do ser em si. De repente, ela compreendeu que não havia futuro, não havia verdade, não tinha havido vida sequer. Tinha amado uma invenção sua. Tinha amado alguém que não existia. Porquê. Não conseguia perceber. Ele olhava para ela, expectante. Quando, com ternura, lhe perguntava se ela o amava, era numa mentira escondida. E quando dizia que falava a verdade, mentia. Quando conversava, sussurrante, ao telefone, mentia. E ela era testemunha de tudo. E mentia também. Diziam-lhe, o que importa é ser feliz, e ela guardava o que vira num recanto longínquo da memória e assentia, enchendo-se de incertezas que lhe apagavam as convicções que sempre tivera. Fica comigo, esta noite. O mundo lá fora não importa. Mas importava. Tudo é importante. Nós, eu, tu, pensava ela. E calava-se, porque a dúvida crescia e fazia descobrir a raiva. E onde é que estás, adivinhava as perguntas, vais trabalhar até tarde, a repetição da vida, vens jantar… não vai, não, vai estar comigo, pensava ela. Adivinhava o mundo alheio. Aquele de que nada sabia, excepto que existia. O que era um nós passou a ser um eu e ele, pensava ela. Quando é que isso aconteceu, quando. E sentou-se no muro da praia. O mundo continuava igual. O mesmo muro em que se sentara daquela outra vez. No areal, jogavam à bola. Os surfistas arrumavam as pranchas. O muro que era o muro das lamentações dela. E ele, onde estaria. Sorridente, longe dela, no mundo que lhe era estranho. Mentindo, longe dela, mentindo a vida colateral que tinha, a vida que se aproximava do fim sem ele saber. Ela ali, sentada no muro da praia, a ensaiar um novo início. Revia, revisitava os amo-te, perdidos numa troca de olhares incómoda. Afastava-se de si. Afastava-se dele e do mundo que ele omitia, que apagava da sua realidade, quando estava com ela. O mundo lá fora não importa, dizia. Nem o mundo, nem ela… nem ele. As gaivotas avançavam pela areia. A decisão estava naquele pedaço de mar. Ela sabia-o. Estava ali, naquele instante. Afinal fora pelo minimalismo patético e egoísta de terem quase nada. Eu não quero mentir mais. Não sabia se era raiva de si própria ou se era ódio pela evidente fragilidade dele. Não sabia. Mas sabia, isso sim, que fora aquele olhar expectante que a libertara.
(escrito depois de ver o trailer do filme La Mujer de Mi Hermano, numa perspectiva indirecta de espelho)
