14.6.04
Da basbaquice
Hoje fui à peregrinação da irritação. Porque será que sempre que de lá venho há uma moínha de irritação que vai crescendo paulatinamente? Porque será?
Entra uma senhora que não consegue falar senão por sons guturais sem qualquer articulação de palavra. Silêncio absoluto na sala. Inicia-se o tratamento. A sala descontrai-se. A senhora, de repente, pede qualquer coisa. Inicialmente não se percebe o quê. A senhora aponta, babando-se um pouco já, para uns toalhetes. A sala cala-se de novo, olhando pasmada para a senhora e para o lavatório que se encontra ao lado dos toalhetes. Digo à enfermeira, a senhora quer um lenço. A enfermeira, ah!! A sala em silêncio absoluto. A senhora babando-se ainda atrapalhada. Dá-se o toalhete à senhora, que rapidamente, tremendo um pouco, limpa o queixo. Simples. A sala em silêncio sepulcral. A senhora quase em lágrimas. Lanço um sorriso à senhora e digo, vai correr tudo bem. A senhora sorri um pouco, limpa os olhos e a saliva que teima em lhe sair pela boca entreaberta. Pergunto à senhora, já fez muitos tratamentos? Silêncio na sala. Olhares de jogo de ténis entre mim e a senhora. Ela faz o percurso das picadelas nos braços, indicando 4 tratamentos, e fazendo acompanhar a viagem com o som gutural que para ela, e para mim a pouco e pouco também, eram palavras. Sorri. Então este é o seu último tratamento, fantástico! Ela sorri também, agora um sorriso franco. A sala em silêncio. Observante. Eu, é isso, quando acabar este tratamento está de férias do hospital um tempito! A senhora sorri de novo e recolhe o olhar na suas mãos, evitando a sala. Em silêncio. Ainda. Quando a nossa conversa descansa, a sala anima-se e retoma o paleio. Why? Será assim tão difícil encarar com naturalidade alguém que é diferente, assim como eu sou diferente por me rir muito e falar pelos cotovelos, e a outra senhora por contar compulsivamente as histórias da sua empresa, e o outro senhor por andar com a ajuda de uma canadiana, e a outra senhora por não conseguir abrir as mãos, e o outro senhor por estar numa cadeira de rodas? Será assim tão difícil olharmos para a diferença do outro e vermos apenas um indivíduo e reagirmos apenas como reagimos em relação a qualquer outro indivíduo? Será????
A onda de irritação foi tanta que passei o resto do tempo a fazer uma ou outra pergunta à senhora, que quase agradecida, me respondia da forma que podia. A sala em soluços de silêncio e de paleio, ao sabor da nossa conversa. Pena a senhora não estar lá amanhã.
