15.6.04
Da assimetria
O livro do Pedro Paixão é surpreendente. Apanha-nos desprevenidos no percurso natural de quem lê palavra atrás de palavra. Contudo, a tranquila simplicidade do texto quase oriental, sobressalta a atenção e leva o leitor a reler uma ou outra frase de uma beleza imensa. No traço orientalista mistura-se a eterna nostalgia bem portuguesa. Esta mistura enternecedora não é, de forma alguma, motivo para que nos sintamos embalados, hipnotizados, obedientes. Pelo contrário, dá-nos vontade de não seguir o caminho habitual da página atrás de página, mas sim de agitar a superfície tranquila do lago espelhado, de ver para além da superfície, de ler e reler num seguimento de assimetria.
Era este mesmo o livro de que precisava esta semana.
... Aqui detesta-se a simetria. Aqui ama-se a harmonia suspensa por um fio que se pode, que ameça, a qualquer instante romper. Tudo aqui se encontra em equilíbrio instável. A simetria é uma forma pobre de harmonia. A assimetria em equilíbrio instável é uma forma superior de harmonia. A não simetria dos arranjos de flores, dos bonsais, dos jardins, das relações humanas, da diferença de sexos, da gente. A não simetria do pacote de chá. A não simetria do seppuko, o suicídio ritual. O simétrico está parado, não se move. O assimétrico está em movimento, vai a correr e, se parar, cai. ...
-- Pedro Paixão, Portokyoto
