13.2.04
De um estágio que devia ser obrigatório...
... todos nós devíamos, doentes ou não doentes, ser obrigados a passar uma manhã, uma tarde, num hospital. É, de facto, uma humbling experience. Faz-nos recordar que temos toda a sorte do mundo, sim, aquela sorte que tanto maldizemos.
Uma rapariga nos seus vinte e poucos anos, amparada por canadianas, arrastando uma perna, mas andando, andando sempre.
Um indivíduo com marcas de um traumatismo craneano, com alterações ósseas visíveis, que não o deixam abrir totalmente um dos olhos, olhando todos de frente.
Uma senhora nos seus quarentas e muitos, cambaleante, a ajudar a sua mãe muito idosa, que tem uma dificuldade imensa em se levantar da cadeira onde esperou que a consulta da filha terminasse.
Um indivíduo numa cadeira de rodas, com as mãos deformadas pela degeneração muscular, empurrando a sua cadeira, lentamente.
Um número imenso de rostos, sentados, esperantes, numa sala a abarrotar de gente, o ar irrespirável. O corropio do não é neste guiché, é no andar de cima, é no andar de baixo, é na Central de Consultas, é aqui, é ali, é acoli... Esperar, esperar, esperar... Uma galeria de horrores ou, pelo contrário, (correndo o risco de parecer melodramática...) um tratado de humanidade e de resistência?
Sempre que venho do hospital, resmunguenta por causa da espera, das bichas intermináveis, dos carimbos, das vinhetas, da loucura das burocracias, vêm-me à memória os rostos que observei com mais intensidade. Recordar-me-ei deles claramente durante algum tempo. Far-me-ão pensar que tenho uma vida fantástica e não deixarão que me queixe de pequenos nadas sem o mínimo de importância.
-- Barber, Adagio for Strings, é a música em que penso...
