29.1.04
Tratem-me como um atrasado mental e eu agirei em conformidade
... perguntei a um aluno que acompanho, o qual por razão nenhuma se levanta do lugar durante as aulas e passeia pela sala, se, estando eu a trabalhar com ele, me poderia levantar assim de repente, virar-lhe as costas, sem lhe dar cavaco, e ir-me embora.
Resposta, claro que não stora, era falta de respeito.
E levantares-te tu não é?
Hesitação... Stora...
And...?, pergunto eu.
Stora..., encolhendo os ombros, ... as aulas são secantes...
Porquê?
Porque não me fazem pensar... é sempre sopa de letras, palavras cruzadas, já tou farto...
Se são secantes, porque não tentas que não o sejam? Porque não propões à prof que se veja um filme, que se faça um debate, que se realizem actividades diferentes?
Encolhe os ombros, yah...
Bom, é claro que se seguiram alguns minutos de elicitação de conteúdos já trabalhados, relativos à correcta postura na aula, ao respeito pelo trabalho dos outros, profs e/ou colegas, e a mais um ou dois conceitos, supostamente, adquiridos anteriormente.
Pensei, que conversa secante... Contudo, o miúdo não se queixou, não fez caras de enjoo nem de amuanço e muito menos de enfado. Colaborou sempre activamente nas questões que lhe lancei.
Pergunto-lhe, e esta conversa agora não é secante?
Responde-me, não.
Porquê?
Porque me faz pensar.
Também eu fiquei a pensar.
As aulas, quando não são o circo de animação e entretenimento, que determinada corrente defendia (e defende ainda), para motivar os meninos, so they say... são secantes, pensamos nós profs, mas... será que os miúdos concordam?
Ou será que o circo reduz os miúdos a uma massa estupidificada, remetida ao seu papel malabarista de fragmentos de conteúdos sem articulação e, consequentemente, sem sentido, ondulante na sua (des)motivação ansiosa?
Somos nós que temos que ser entertainers? Ou, devemos optar por trabalhar solidamente, sem fantasias? Afinal, queremos conteúdo ou forma?
Eu quero as duas coisas. E acho que talvez não fosse má ideia começar pelo conteúdo, para que a forma se torne então mais sólida, digo eu... e pelos vistos, também o miúdo que acompanho.
